Mirella Stivani
Para o educador, que já visitou várias vezes o Brasil e inclusive entende a língua portuguesa, o investimento do governo em escolas públicas é fundamental, já que é uma maneira incontestável de descobrir e estimular grandes talentos. Masi ainda afirmou: “A inteligência não está só na classe rica, está também na classe pobre. A escola pública é indispensável para desenvolver a inteligência popular."
Para o sociólogo, a educação, em seus primórdios, era restrita a um pequeno grupo. Depois, evoluiu para muitos, mas ainda ministrada por poucos. Com o advento da internet, redes sociais e enciclopédias on-line, a educação é de muitos para muitos. Mas os professores precisam direcionar este conhecimento de forma correta.
Masi também acredita que, de maneira geral, a escola é um local triste, porque prepara os jovens apenas para o trabalho. São poucas as instituições que ensinam como escolher um filme, um livro prazeroso, aproveitar as férias e viver o tempo livre sem culpa. “A escola será um lugar feliz se mudar e aprender a educar para a vida”, ressalta. O sociólogo recebeu a Gestão Educacional durante sua última visita ao País neste ano. Veja a seguir a entrevista exclusiva.
Gestão Educacional: O que é criatividade e como ela pode ser empregada na educação?
Domenico De Masi: A criatividade é um instinto humano muito estudado por diferentes profissionais, como psicólogos, psicanalistas, economistas, epistemologistas e sociólogos. Cada um estuda um aspecto. Por exemplo, a psicanálise quer descobrir por que temos o instinto para a criatividade, a sociologia estuda quais são as sociedades mais propícias à criatividade e à formação de pessoas criativas, a epistemologia estuda quais são os processos da criatividade, os psicólogos pesquisam as características da personalidade criativa, e assim por diante. Eu prefiro definir a criatividade com a síntese de duas qualidades humanas: a fantasia, com a qual pensamos em algo, e a concretude, com a qual a realizamos. Criatividade na educação significa educação na humanidade. A criatividade é um traço distintivo dos seres humanos, o que nos difere dos animais.
Gestão Educacional: Como o professor pode tornar o seu trabalho mais prazeroso?
Masi: Existem trabalhos que não podem se tornar mais prazerosos porque são perigosos, repetitivos, tediosos, banais. É difícil deixá-los mais divertidos; apenas podemos tentar diminuir a carga horária. Outros podem ser mais interessantes porque trazem o uso da inteligência. É essencial que o trabalho sempre reúna inteligência, criatividade e liberdade. Para que a atividade de um professor se torne mais prazerosa, é preciso agregar esses três aspectos. Se uma pessoa está em um trabalho que não é inteligente, não é criativo, que é tedioso, que é perigoso, então, é um alienado. O trabalho do professor já é um grande prazer, porque consiste na troca de ideias com os jovens. Cada ano, o educador ganha um ano a mais de experiência e conhecimento. A atividade do professor trata-se de um trabalho intelectual com jovens e a programação é completamente autônoma, independente. Ou seja, o trabalho do professor já é um prazer por si mesmo, é essencialmente belo.
Gestão Educacional: Como a escola pode fornecer aos professores as ferramentas necessárias para melhorar o ensino?
Masi: A educação deve se transformar em ócio criativo. Algo em que coexiste o trabalho, o estudo (aquilo que desejamos saber) e o jogo. Quando a educação se transforma em ócio criativo, imediatamente, o ensino se torna criativo também.
Gestão Educacional: Mas, afinal, o que é o ócio criativo?
Masi: Importante ressaltar que não tem a ver com a preguiça, pelo contrário, é o momento em que estamos aprendendo, trabalhando e nos divertindo. A plenitude da atividade humana é alcançada somente quando nela coincidem, acumulam-se e se mesclam o trabalho, o estudo e o jogo; isto é, quando nós trabalhamos, aprendemos e nos divertimos, tudo ao mesmo tempo. O ócio criativo é uma arte que se aprende e se aperfeiçoa com o tempo e com o exercício. Existe uma alienação por excesso de trabalho pós-industrial e falta de ócio criativo, assim como existia uma alienação por excesso de exploração pelo trabalho industrial.
Gestão Educacional: As escolas estão ou não preparando seus alunos para o ócio criativo?
Masi: Depende muito. Visitei uma escola pública aqui no Brasil, em Foz do Iguaçu (PR), onde havia 26 mil alunos, e ali se pode afirmar que estão preparando os alunos para o ócio criativo. A escola tradicional só faz interseção com o trabalho, nunca com o lazer e o tempo livre, [situação] que pode virar o momento do tédio, da violência e da droga, por exemplo.
Gestão Educacional: Existe uma diferença marcante entre as escolas do Brasil e da Europa?
Masi: As escolas do Brasil são melhores, os alunos são mais amados. Aqui eles não são vistos apenas como números, mas como pessoas.
Gestão Educacional: Por que o senhor defende a ideia de que as escolas devem preparar para o tempo livre e não apenas para o trabalho?
Masi: Em nossas vidas, o tempo livre representa nove décimos. Um décimo é trabalho. Não devemos educar apenas para um décimo de toda a nossa existência. Na verdade, devemos ensinar os alunos a lidar com tudo, mas sem se esquecer que os nove décimos são fundamentais. A escola deve formar para o amor e para a beleza. Não deve educar somente para o trabalho, deve educar para a vida. A escola contemporânea tem formado pessoas tristes, porque formam somente para o trabalho. O ser humano vive também para o estudo, para a aprendizagem, para as amizades, o amor e a beleza. A escola deixou de ser atraente. A escola tem que formar jovens criadores de ideias.
Gestão Educacional: Qual a diferença entre educar para a vida e educar para o trabalho?
Masi: Existe uma grande diferença. O trabalho não deve se transformar na vida da pessoa, a não ser que se transforme em ócio criativo. Atualmente, está tudo separado. Quando se trabalha, apenas se trabalha, não há diversão. Na verdade, o trabalho e a diversão têm de estar sempre juntos. Quando trabalhamos, devemos nos divertir, e devemos trabalhar também quando estamos nos divertindo. O trabalho ainda é visto como algo apenas racional. A vida é racional, mas também emotiva. O trabalho é, em sua maioria, masculino, a vida é masculina e feminina. O trabalho é prática e a vida é prática e estética. O trabalho é objetivo, a vida subjetiva. Devemos recriar a união de trabalho e vida como era antigamente e ensinar isso aos alunos.
Gestão Educacional: O salário é fundamental para a profissão de educador?
Masi: Não é fundamental. É importante, mas não é o ponto principal. A qualidade do ensino consiste no fato de que o professor tenha realmente a vocação para ensinar. O ensino não pode ser algo secundário na vida, tem que ser toda a vida de um professor. Os principais fatores são a cultura e a paixão. Mas isso também não significa que o salário deve ser baixo.
Gestão Educacional: Como a internet pode ajudar no ensino?
Masi: A internet pode ajudar de diferentes maneiras. Entretanto, deve-se lembrar que a internet não é algo, mas sim um modo de ensino. Como todos os meios, [a internet] também pode ser prejudicial. [Mas pode ser] uma grande oportunidade para o professor criar interação e interagir também com o mundo. É uma abertura extraordinária. Deve ser usada junto com a relação face a face – não é para substituir isso, mas para enriquecer a forma de ensinar.
Gestão Educacional: Qual conselho o senhor daria para os gestores educacionais e professores de todo o Brasil?
Masi: Transformar o trabalho deles em ócio criativo! Uma escola atraente é aquela onde o tempo inteiro se joga, se estuda e se trabalha. Ou seja, uma escola com muito ócio criativo.
Entrevista publicada na edição de agosto de 2011 da revista Gestão Educacional.
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